O Obituário de Vicente Arnoso (1881-1925)

VICENTE ARNOSO, por Norberto de Araújo,
in «Diário de Lisboa», nº 1282, de 16 de Junho de 1925

Figura muito interessante, gentilíssima figura de tempo antigo em nosso tempo, era esta de Vicente Arnoso, falecido ontem, na sua casa da Lapa, deixando atraz do seu nome um cortejo de saudades, de lágrimas, de simpatia.
Se ainda fosse tolerável esta imagem, diríamos que desaparece da vida, em plena e radiosa mocidade, um tipo de cavaleiro fidalgo, que estilisado sem esforço por um espirito privilegiado nas letras e na pintura de retratos, daria um donzel de tábua primitiva ou de vitral gótico, tamanha era a pureza da sua alma e a graça castiça, portuguessíssima, da sua linha varonil e delicada.
– Espírito fascinador….Bondade privilegiada… – lhe chamou ha poucos minutos nesta redacção um seu contemporâneo de Coimbra, o poeta Augusto Gil.
– Flor de milagrosa haste… – acrescentou o poeta João de Barros – carácter de fidalga linha e doce sentir.
Da sua vida, tão curta – Vicente Arnoso era um rapaz – ficam, a par da recordação da sua linha gentil e fidalga de moço de bom sangue, as anedoctas sem malícia da sua boémia de espírito bondoso, os versos líricos da sua alma de troveiro, em perpetua primavera florida, a exaltação do seu amor por Coimbra “terra de amores”, e os testemunhos da sua impecável organização de nobre, fazendo o bem, sem olhar a quem, praticando a alegria no seu sorriso de irmão para os amigos, e de amigo para os desconhecidos.
Vicente Arnoso – que esse grande médico e belo espírito que é Cassiano Neves seu condiscípulo e seu íntimo da vida coimbrã, não logrou arrancar à morte – é lembrado hoje, evoca-se hoje com aquela enternecida lagrima oculta que já não se tem senão para os raros, de coração perfeito, que Deus elege em cada geração.
Da molhada de rosas que os cursos da vida dão, ha sempre uma que fica branca entre mil, mais branca que todas, e se apaga como ainda em botão. Do seu tempo – Vicente Arnoso era a rosa branca, feliz, predestinada para morrer cedo, logo atraz das rosas vermelhas que fizeram a colegiada boémia e santa da sua juventude.
Não o pode ter amado quem não o conheceu, do intimo. Mas a simpatia, que é uma espécie de amor que não sabe falar, fica dele em todos, como se todos com ele, uma hora só, houvessem sido irmãos.

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Vicente Arnoso pertenceu a uma geração singularíssima de Coimbra, uma que deu troveiros e idealistas. A vida, se os espalhou, não os afastou. A distância, mata-a a bondade. Não houve nunca melhor bondade na terra, e os outros, que com ele viveram e viviam – tinham também qualquer coisa de bom, que explicava, nos arroubamentos defendidos pelo instinto fidalgo de bem se cercar, as aproximações para o seu peito varonil. Fizera com Alexandre Braga, com Alberto Costa, o “Pad Zé”, com Aníbal Soares, ainda, com Augusto Soares, Lopes Vieira, João de Barros, Augusto Gil, Amândio Baptista de Sousa (Carnaxide), Fausto Guedes e outros – uma geração impecável de almas boas, concertadas dentro do desconcerto de génios, tendências, ilusões políticas, pecado de se ter nascido homem.
– A sua faceta peregrina – é ainda Augusto Gil a dizer – era o caracter nobre: o coração de castidade perfeita, a elegância natural e desenfadada, servido tudo isto, durante alguns anos, pela boémia mais aprumada que as cidades viram.
Filho de um grande Conde lendário – que já não há Condes assim – herdeiro de uma fortuna moral, rebento delicado de uma privilegiada estirpe fidalga, Vicente Arnoso, o das “Cantigas leva-as o Vento”, que a fazer versos utilisava o lirismo suave e saboroso dos nossos mestres de redondilhas de amor, e a ensaiar teatro se possuía da ternura de excepção que teve por Maior o génio inocente de D. João da Câmara; o morto de ontem morreu rapaz, fidalgo e bom português, de esguia mão estendida a todos os humildes, como é timbre dos santos das dinastias do amor à maneira de Cristo; e dele, do seu tipo e arcabouço gentil fica a mágoa de não restar modelo – para Portugal ser uma terra de melhor viver, e mais doce sentimento de nos querermos uns aos outros, mesmo na diversidade dos atalhos, onde a gente se perde, e se vê de longe a acenar com um lenço branco.
Aos quinze dias, ainda no berço – um homem, que foi alguém nas letras deste país, ia-o olhando, olhando, numa persistência infatigável, que fez estranhar o Pae, o amigo de D. Carlos, grão-senhor de lealdade cavalheiresca, mesmo num país onde todos fossem escudeiros fidalgos.
– Estou a ver um ente que ainda é mais magro do que eu…
Assim se desculpou Eça de Queirós da teimosia do seu monóculo observador.
O que o Eça vislumbrava, ainda no arminho do leito dos príncipes do espirito – era uma figura heróica de moço cavaleiro, que desse apontamento para um romance de portugueses bons e liais – que já não é possível escrever.

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As suas anedoctas têm, sem a pirraça grosseira que em regra dá relevo às historietas que ficam gravadas nas lendas boémias dos meios escolares, um travo de espírito e de comedida audácia. Mas as suas melhores anedoctas ainda são as que nasciam do coração primeiro que do génio imaginoso das rapaziadas.
Há lá nada mais belo do que isso de trazer para Lisboa o «Magrinho», senhor de tasco coimbrão, que Vicente Arnoso estabeleceu ali na rua das Pretas, e que protegia, abraçava e enternecidamente apresentava: «o meu compadre “Magrinho”» ?
Não havia em Coimbra dinheiro que lhe chegasse. A sua pelintrice era igual à daqueles que nunca tinham senão o pouco que sabe bem recordar agora. É que – discretamente, com uma luva fidalga no bolso para que não visse o gesto da outra mão – distribuía muito.
Manuel da Silva Gayo há de saber anedoctas do seu coração. Se é certo que os pobres têm memória, há-de haver memórias erguidas na saudade dos velhos e das tricanas, que resistiram á sua partida para a cidade, cá em baixo – Lisboa da política, que ele nunca soube que existia, senão para as amarguras da sua alma, herdeira de antigas amarguras.
Ultimamente compunha versos, e fazia lavoura. Votara-se à lavoura, no seu solar da Beira, onde «ainda cheira a Coimbra», e onde o amor à terra é tão fecundo como o daquela velhinha, dona de um palmo de horta, que comia na sua casa palaciana, e passava os dias a cavar – de joelhos ! – porque já não podia cavar – de pé.
Como D. Deniz – fizera-se poeta lavrador. A boémia da terra amorável, irmã do seu coração.
Vicente Arnoso vai amanhã para o cemitério e com ele qualquer coisa de muito bom – muito mais difícil de encontrar que o trevo de quatro folhas. – N. A.”.

Ambos estavam longe de imaginar nesse longíquo ano de 1925, que um dia, seus netos José Vicente e Maria Ernestina haveriam de casar, tendo uma filha e dois netos, em cujas veias corre o nobre sangue de Vicente Arnoso e de Norberto de Araújo!